sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Desabafo

Com base no filme “Não gosto dos meninos”, vou fazer aqui um desabafo com relação a tudo o que vivi.
Apesar de ter sido criado numa religião, ter princípios, ter estudado em colégio de padres, sempre fui criado para depois de crescer, constituir uma família com esposa e filhos. Apesar da minha criação, nunca senti essa necessidade.


Tive muitos conflitos existenciais. Pedia a Deus para tirar esses pensamentos de dentro de mim, mas nada acontecia. Continuava a gostar de homens.


Mesmo antes de sentir atração sexual, já me sentia diferente.
Eu me sentia estranho e isso me causava mal estar.
Negava como era, não me aceitava e queria mudar a qualquer custo.


Achava que era uma fase e que um dia fosse passar. Mas nunca passou.
Sofri torturas psicológicas, comentários, bullying.
Para evitar retaliações, preferia me isolar como faço até hoje.


O medo da rejeição, me fez demorar para contar para minha mãe. Lembro que já estava com uns 19 anos e contei para ela na roleta da estação do metrô, bem no horário de pico. Achei que se contasse diante um público imenso, talvez fosse mais fácil para mim e para ela. Fiquei com medo de sofrer retaliação por parte dela, mas ela entendeu.

Lembro que chorei muito, parecia uma criança. As pessoas passavam e não entendiam nada. Não consigo lembrar nenhuma emoção por parte da minha mãe, mas lembro que ela disse que já imaginava.


Os pais na verdade quase sempre sabem da nossa opção. Não tem como esconder isso deles. Ela disse que quando eu era pequeno, havia pego o sapato de salto alto dela e saído no meio da rua. Queria chamar a atenção de qualquer jeito. Contou que eu gostava de bonecas. Isso eu me lembro. Outra coisa que me lembro, é que odiava jogar futebol. As aulas de Educação Física eram torturantes. Tinha que jogar bola para não ser chamado de viadinho. 

Também lembro que sofria rejeição por parte de meu pai, que sempre desejou ter uma filha mulher. Às pessoas falam que o desejo por parte dos pais, pode influenciar na escolha sexual do indivíduo. Mas acho que não acredito nisso. A rejeição por parte dele era tanta, que precisei fazer terapia. Hoje consigo entender, que quem deveria ter feito terapia era ele. Talvez nossas vidas tivessem sido tão diferentes. 

Depois quando cheguei na puberdade, meu pai percebeu o erro que tinha feito a mim. Mas já era tarde demais. Nos últimos anos de vida dele, por mais que ele tentasse recuperar o tempo perdido, a mágoa que ficou dentro de mim não permitia que eu o aceitasse. Viviamos como dois estranhos. Quase não falava com ele. 

Quando meu pai morreu, infelizmente não consegui sentir NADA. Sofri por causa do sofrimento da minha mãe. O maior medo dos pais é de sermos agredidos na rua. Mas também da vergonha que passam. A grande maioria dos pais se perguntam, o que fizeram de errado na criação do filho para ele ser desse jeito.

Logo que meu pai morreu, sai de casa. Todos foram contra. Minha mãe me apoiou porque morei um tempo com um casal de amigos dela. Mesmo assim, meus parentes achavam que eu fosse cair na vida. 
Os pais quase sempre acham que o filho vai se prostituir e cair no mundo da sodomia. 

Drogas, baladas dia e noite, noites sem dormir. Achavam que eu fosse desandar na vida. Infelizmente, sinto que minha mãe não tem orgulho de mim, apesar de eu fazer tudo por ela. Nunca escondi da minha família, mas também não me abri pra ninguém.

Dias atrás, minha irmã contou para minha mãe que descobriu que um colega seu tinha virado gay. Ela disse que não entendia como um garoto que tinha estudado a vida toda com ela, com jeito de homem, estudado em escola particular, havia se tornado gay.


Sei que quando escondemos algo, ajuda a manter o preconceito, como se isso não fosse normal. Mas por enquanto, me sinto melhor assim. Meus parentes são muitos preconceituosos. Não sei se vou aguentar mais rejeição por parte deles. Por mais que tenha tentado namorar com mulheres, sempre senti atração por homens, desde bem pequeno. 

Lembro da minha paixão por um amigo quando tinha 6 anos de idade. Descobri esses dias que ele se separou. Se soubesse que teria alguma chance com ele, iria correndo para os seus braços.


Quase nunca sentia atração por amigos próximos, mas esse ficou marcado para sempre em minha memória.


Lembro de um amigo que foi ao banheiro e se masturbou. Depois voltou com o pênis duro e mostrou seu calibre para nós. Mesmo assim, não fiquei nada excitado.


A falta de modelo e referência trás muita tristeza para nós. Acho que meu amiguinho, o filho da juíza, era gay. Por isso me dava tão bem com ele. Nunca falávamos sobre isso, porque éramos muito novinhos. Tínhamos entre dez e doze anos. Pena que perdi o contato com ele.

Moral da história:
Se aceitar e não ter vergonha de falar o que sente. Se assumir para você mesmo, fica tudo mais fácil. Problema é de quem não gostar. Não precisamos ser iguais aos outros, e sim, nós mesmos.

A minha diferença é que incomodava os outros. Não devemos nos sentir culpados ou com peso na consciência. E nunca enfrentar isso como se fosse um problema. O problema está no preconceito das outras pessoas. O problema está nos outros que não entendem e não me aceitam como sou, pois gostariam que eu fosse do jeito deles.

Não somos coitadinhos.
Ser gay é o menor dos problemas.
Não subestime o amor das pessoas por você.
Se aceite e se ame.

Segundo os depoimentos, não devemos ter vergonha de si mesmo.
Devemos enfrentar o mundo e ser como somos.
A vida vai ficar bem melhor!

Será? O que você acha disso? Sair ou não sair do armário?

Deixe o seu comentário.


Beijos nos pés!


Assista ao filme "Não gosto dos meninos".