segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Orações para Bobby

Posterguei o máximo que pude para assistir Orações para Bobby, pois sabia que o filme iria ser bem triste. Encharquei minha camisa de tanto chorar. 

O filme lembrou todas as minhas agruras que passei na vida com a minha família.
Quando eu era bem pequeno, uns cinco anos, minha mãe chegou em casa e eu tinha colocado o sapato de salto alto dela e tinha ido para o meio da rua. 

Ela estava acompanhada de uma amiga que era psicóloga que disse para eu fazer um tratamento com um neurologista, pois eu tinha distúrbio de comportamento.

Até hoje me lembro que era um consultório bem pequeno, que ficava entre minha casa e a igreja que nós íamos. O médico perguntava coisas e mandava eu desenhar. 

Conversei esses dias sobre o que o médico dizia, mas ela desconversou sobre o assunto.
Disse apenas que eu tinha problema de relacionamento com as outras crianças.

O que eu me lembro, é que eu me recusava em jogar bola e os meus coleguinhas me chamavam de bicha. Por causa disso, tinha muita dificuldade em ter amiguinhos, pois ficava estigmatizado por ser chamado disso.

Lembro certa vez que meu pai foi levar minha mãe em um curso, e apareceu um colega dela que era gay. Nunca esqueci que quando minha mãe viu ele, ela virou e disse para mim que ele era bicha louca. Me deu uma vontade de dizer para ela que os colegas também me chamavam assim! 

Minha mãe tinha e tem muito preconceito e acabou pagando com a língua.
Lembro que minha cama tinha um monte de bichinhos de pelúcia e gostava de pendurar gravuras de desenhos que eu pintava. 

Enquanto meu irmão tinha apenas uma tartaruguinha.

Sofri muito preconceito e bullying pelo fato de não jogar bola. Era considerado sempre o gayzinho, e para não me sentir sozinho, ficava com alguma menina. Isso começou a acontecer no quarto ano.

Lembro até hoje que a menina se chamava Claudia. Dancei na Festa Junina com ela. Quando sai da escola católica e fui para a protestante, arrumei amiguinhos do mesmo sexo que eu. Essa fase durou três anos.

Quando fui para o oitavo ano, entrei na puberdade e acabei tendo um pouco de dificuldade em fazer amizade. 

Lembro apenas que trocava ideia com os renegados da minha sala de aula. Um usava droga e quase levou um colega a se matar de overdose. E o outro era anão.
Assim como a mãe de Bobby, minha mãe também tinha táticas para eu não me desvirtuar do caminho que ela achava o correto. 

Depois que entrei na puberdade, ela fazia marcação cerrada com relação as minhas amizades. Proibia de eu fazer amizade com colegas da escola ou do prédio em que morava. 

Os meninos iam me chamar para brincar, mas era em vão. Minha mãe só não proibia os irmãos da igreja. Foi quando fundei O Quarteto. Mesmo assim minha mãe ficava na minha cola, e olha que nem existia celular nessa época. 

Íamos na igreja três vezes por semana, e nos outros dias estudávamos em casa. A programação da TV era selecionada e me divertia apenas com músicas do rádio. O computador era usado apenas pelo meu irmão, que só fazia jogar vídeo game.

Depois que saí de casa, ainda na adolescência, penei muito até conseguir arrumar um emprego para poder pagar uma edícula e poder viver sossegado minha vida.  

Depois de um tempo voltei a morar com minha mãe porque não conseguia pagar a faculdade e o aluguel ao mesmo tempo. Entrei em depressão por que minha mãe ainda enchia o meu saco com relação a minha escolha. 

Então novamente me submeti a um tratamento no Hospital das Clínicas de São Paulo, com uma psiquiatra. Minha mãe sempre estava presente nas sessões e não tinha como pedir socorro da médica. Até que um dia a médica falou na cara da minha mãe que eu não tinha nada e que não devia voltar mais lá. 

Só faltou dizer para ela que o meu problema não tinha cura. Apesar que a médica não achava que o fato de eu ser gay era um problema.

Tempos atrás, perguntei para minha mãe se ela achava melhor um filho drogado, beberrão, que bate em mulher, ou um gay. Ela deu a entender que preferia o drogado mesmo.

Assisti em um Caso de Família, uma moça que queria apenas um abraço verdadeiro da mãe e que queria ser amada. No fim do programa, a mãe abraçou a filha muito a contragosto, porque estava em frente das câmeras, e porque o auditório insistiu para ela abraçar a filha. 

Mas a psicóloga que acompanhava o caso, disse que ela precisava aprender a conviver com o fato de a mãe não gostar dela. “Ninguém é obrigado a gostar de ninguém, mesmo que seja mãe”. 

A psicóloga disse que ela precisava tentar superar isso. Isso é que eu tento fazer com minha mãe. Certa vez ela perguntou se eu me sentia amado, e lembro que respondi que não. Isso faz muitos anos.

Por mais que eu faça tudo por minha mãe, ainda não consigo me sentir amado. Sinto muito por não ser o filho que ela esperasse que eu fosse. 

Por mais que me reprima e aceite morar junto dela com todas as suas exigências, ainda assim serei sempre uma bicha que gosta de homens e pés masculinos.

Na medida do possível, tento sobreviver a esse mundo preconceituoso. 

Pena que o Bobby não teve a mesma chance.

Beijos nos pés!